“O Estado não tem cumprido um papel satisfatório no desenvolvimento das valências informáticas e digitais”

A presidente da direção da Associação Nacional de Professores de Informática acredita que há ainda muito trabalho a fazer no que toca ao desenvolvimento das competências informáticas das crianças e jovens portugueses. O Governo não está a desempenhar o papel que devia, salienta.

Em setembro, uma reportagem do TeK mostrou que as escolas portuguesas pecam muito pelo atraso tecnológico e pela falta dos devidos investimentos. Estas palavras são ecoadas pela presidente da Direção da Associação Nacional de Professores de Informática (ANPRI).

Como explica Fernanda Ledesma em entrevista ao TeK, ainda há um longo caminho a percorrer na área da Educação no que diz respeito ao desenvolvimento das competências digitais nas escolas portuguesas.

Apesar de reconhecer que as crianças e jovens de hoje já nascem com uma capacidade “inata” para lidar com as tecnologias, explica que é preciso investir no desenvolvimento de competências que permitam aos mais profissionais do futuro retirar o máximo potencial da tecnologia. Fernanda Ledesma salienta que o Estado não está a cumprir um papel satisfatório nesta área.

Sublinhando que os alunos, até aos níveis mais avançados do percurso escolar, continuam a ser meros consumidores de tecnologia e não criadores de conteúdos, a responsável diz que o Governo devia apostar numa maior integração das tecnologias no âmbito pedagógico e que “é necessário que o Estado passe das ações de sensibilização para ação concreta”.

TeK: Qual a opinião da ANPRI relativamente ao ensino de competências informáticas das crianças e dos jovens nas escolas portuguesas? Quais os desafios que considera que devem ser ultrapassados?

Fernanda Ledesma: Relativamente ao desenvolvimento das competências informáticas e digitais, entendemos que há muito a fazer na área da educação. Criou-se a ideia, ainda que de uma forma muito ligeira, de que as crianças de hoje em dia já sabem tudo sobre tecnologia. Seria o mesmo que dizer que falam português desde que nascem, por isso sabem português. É uma realidade que nasceram e cresceram em ambientes com tecnologias, que têm mais facilidade na interação com as mesmas, que não têm receio de as usar, que por vezes os adultos evidenciam. Mas o nível de desenvolvimento de competências digitais não é o desejável. Os alunos não sabem usar as tecnologias de forma a retirar as potencialidades que têm para os trabalhos escolares e para o dia-a-dia. Se olharmos para um nível mais elevado, continuam a ser consumidores e não criadores de conteúdos. Então, no que se refere à segurança há um trabalho imenso a fazer. A escola tem uma função essencial que começa por educá-los para o uso adequado das tecnologias, desde o início do percurso escolar.

TeK: O Estado tem cumprido um papel satisfatório no que diz respeito ao desenvolvimento das valências informáticas e digitais dos estudantes portugueses? Ou deveria fazer mais?

Fernanda Ledesma: Não, o Estado não tem cumprido um papel satisfatório no que diz respeito ao desenvolvimento das valências informáticas e digitais dos estudantes portugueses. Existe apenas a disciplina de TIC, no 7º e 8º ano, com caráter semestral ou 45 minutos anual. A carga horária prevista no currículo nacional da disciplina é muito pequena, considerando a exigência do uso das novas tecnologias como suporte de desenvolvimento a todas as áreas da sociedade de informação. Tendo em conta o que é solicitado, hoje, pelo e-goverment e noutras áreas e o que será pedido futuramente, consideramos que não estamos a dar resposta às necessidades ao nível de desenvolvimento das literacias digitais, de modo a atingir os objetivos e metas nacionais e europeus definidos para esta área.

No entanto, a Disciplina de TIC continua a ser o único espaço/tempo obrigatório e garantido na escola para assegurar a todos os jovens o acesso às tecnologias da informação e da comunicação como condição indispensável para a melhoria da qualidade e da eficácia da educação e formação à luz das exigências da sociedade da informação e do conhecimento.

Tudo o que existe, para além desta disciplina, são ofertas e situações opcionais que não chegam a todos os alunos e ficam ao critério das decisões, dos conhecimentos e da sensibilidade dos órgãos de gestão das escolas e dos professores.

Do 8º ano até ao 12º ano, não há nenhuma disciplina obrigatória, para todos os alunos, na área da informática, tecnologias ou ciências da computação. Há um percurso no ensino regular secundário que se chama ciências e tecnologia e não têm nenhuma disciplina de tecnologias.

TeK: De que forma é que a ANPRI acredita que será possível aumentar a chamada “literacia digital” em Portugal? O que é que pode, ou deve, ser feito nesse sentido?

Fernanda Ledesma: É necessário que o Estado passe das ações de sensibilização para ação concreta. É fundamental implementar ações na raiz do problema, que é no percurso de ensino escolar obrigatório. O que temos visto é a implementação de programas pós-ensino obrigatório, para desempregados, formações e requalificações, em poucos meses. Vendo essas ações, de requalificação, com bons olhos, não podemos estar a agir sempre no período pós-escolaridade obrigatória. Se a requalificação é importante, não menos importante é investir nos que estão no percurso escolar para que saiam já com os conhecimentos e competências necessários. Senão teremos programas de requalificação sucessivos, porque a aposta no desenvolvimento destas competências não foi feito no percurso escolar e tem de se investir novamente.

TeK: Em que iniciativas e projetos está a ANPRI atualmente envolvida? E tem projetos futuros em vista?

Fernanda Ledesma: A ANPRI é parceira do projeto de iniciação à programação no 1º ciclo e outros. Apoiamos o projeto, no que nos é solicitado pelo Ministério de Educação e apostamos na formação dos professores. Também dinamizamos várias atividades na área da programação e robótica. Somos parceiros de inúmeros projetos de programação, apps, robótica, construção de websites porque entendemos que nos permitem desafiar e envolver os professores e alunos a ensinar e aprender informática de uma forma mais contextualizada e mais real.

TeK: A ANPRI considera que as escolas portuguesas estão aptas a ensinar, devidamente, os mais jovens na esfera da informática e das tecnologias – em termos de infraestruturas, equipamentos, profissionais qualificados?

Fernanda Ledesma: As infraestruturas das escolas, na sua maioria, precisam de um upgrade, bem como o equipamento existente. Muitas estão como ficaram no final do plano tecnológico da educação, em 2010. Outras têm conseguido algum equipamento através da candidatura a projetos dinamizados por fundações e outras instituições. Depende muito das dinâmicas das escolas.

Os professores precisam de formação, nomeadamente de ter acesso a formação significativa para cada grupo curricular, tal como todos os outros profissionais. Em Portugal temos um grupo de professores que fazem projetos maravilhosos do mais inovador que existe, muitas vezes com pouco equipamento e pouco reconhecimento.

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